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Uma curta crónica sobre o Dundo e o Assentamento do Lóvua

Aterrámos no Dundo, um pouco depois do meio-dia, ao final de uma viagem de uma hora, num aeroporto cujo estado de conservação era muito melhor do que eu tinha pré-conceitualizado. O processo todo de desembarque, controle de documentos e a dinâmica toda no aeroporto Kamakenzo foi rápido. A Lunda-Norte é muito conhecida por ser uma província mineira e pelo seu vasto potencial em termos de recursos, pode ver-se claros sinais de exploração em alguns municípios.

Nós, a Acelera Angola, numa missão para o Programa para o desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD), embarcamos para a Lunda-Norte, com o propósito de fazer uma visita aos Municípios do Dundo e Lóvua especificamente, e fazer um trabalho de levantamento sobre o que tem sido feito em termos de Empreendedorismo, medir o grau de desenvolvimento desses dois Municípios no geral, bem como falar com os refugiados da República Democrática do Congo que se encontram no assentamento do Lóvua há mais ou menos dois anos. Aos sairmos do aeroporto, notou-se a existência de vários moto-taxistas. Numa conversa breve, e depois de dois dias na Cidade, conseguimos perceber que essa forma de transporte é a mais comum no Município. Nos poucos dias passados no Dundo, não se viu nenhum transporte público intermunicipal. O acesso aos transportes representa um problema, e isso dificulta o movimento de bens e pessoas, afectando directamente o desenvolvimento do Município, e até certo ponto, a própria economia local.

Durante a viagem do aeroporto para o local em que ficaríamos hospedados, sinais tímidos de progressos conseguiam ser notados, com os prédios das cada vez mais frequentes centralidades a preencherem-nos os olhos, enquanto viam-se resíduos sólidos subaproveitados espalhados pelas portas e ao longo dos passeios. Esse cenário é muito comum em todas as cidades angolanas, e Dundo claramente não fugia à regra.

No nosso primeiro dia, numa reunião com o Centro Local de Empreendedorismo e Serviços da cidade (CLESE), fez-se um levantamento sobre a abertura dos jovens do Dundo para os programas de apoio existentes na zona e o grau de engajamento nos cursos ministrados na instituição. Segundo o Director da Instituição, existem ainda pouco empreendedores na Província, e têm através de palestras feitas em Escolas no Município do Dundo, promover os programas da CLESE e mostrando as vantagens que as mesmas oferecem. A actividade comercial é muito forte na região, então mostrar para as pessoas as vastas possibilidades de optimização das suas actividades é o objectivo primário daquela instituição.

Dos jovens, que são a força motriz de qualquer comunidade, deu para ler-lhes a vontade de começar a criar, apesar de grande parte deles não estarem inscritos em programas para empreendedores, mas em cursos de Informática básica e Inglês. Estimular essa massa da população apresentando-lhes possibilidades de crescimento na região, aproveitando o mercado que têm, deve ser um trabalho contínuo. Contudo, realismo é necessário, e é preciso em conjunto, criar condições em termos de transportes, infraestruturas e educação.

No Lóvua, um Município situado há uma hora do Dundo, tivemos contacto directo com o ViceAdministrador, e obtivemos alguma informação sobre o ritmo de crescimento da área. A “terra da Prosperidade” – como se podia ler num placard de boas-vindas logo à entrada do Município – tem a agricultura como a principal actividade, e aparentemente não há região Angolana que produza mais catatu* que o Lóvua. Tendo sido promovida para Município há curtos quatro anos, os sinais de progresso ainda são muito tímidos. São muito poucos os transportes
existentes na região, são muito poucas as iniciativas locais para além das agrícolas. Produz-se muita mandioca, mas não há fábricas para transformação desses produtos. Há muito por explorar e criar, e pode-se perceber e extremamente necessário criar estímulo para o aproveitamento efectivo do potencial da zona. E como umas das pessoas que embarcou para essa missão disse na conversa com Vice-Administrador do Lóvua, enquanto explicava-nos sobre o potencial agrícola do lugar: “Erramos ao ignorarmos o solo, e ter prestado atenção para o subsolo apenas.”

Há pouquíssimos quilómetros, fica o assentamento do Lóvua, que tem dimensão de 9  4 quilómetros, e que até Setembro de 2017, acolhia 1650 refugiados. Esses números devem certamente ter crescido nos últimos anos. No assentamento, e pela conversa com os refugiados, deu para claramente perceber o misto de incerteza e esperança no olhar de cada uma das pessoas lá. As limitações de mobilidade, a insuficiência de recursos financeiros para a criação de um negócio estável, os incómodos da polícia, e tantos outros problemas inquietam os refugiados vivendo no assentamento. Contudo, diante daquele cenário, deu para notar a característica inata do homem de adaptar-se às situações e criar condições para sobreviver. Apesar das limitações, são muitos a fazerem pequenos negócios e a empreenderem dentro das oportunidades que lhes são proporcionadas. Há no assentamento pessoas fazendo moto-táxi, agricultura, criação de galinhas, e pequenos comércios de toda sorte.

Nós, enquanto organização cuja a actividade principal é a aceleração e incubação de negócios, e dentro do nosso âmbito social, temos como objectivo equipar pessoas com ferramentas úteis para o melhoramento das suas actividades. Contribuir para o crescimento das pessoas, capacitando-as com conhecimento para que possam criar, desenvolver e melhorar as suas ideias de negócios, é uma das nossas missões.

– Por Miguel Santos